Menos turismo, mais comunidade! ManiFESTA em frente ao Quartel da Graça

No passado dia 29 de março, no Largo da Graça em Lisboa, fomos centenas de pessoas a festejar o poder do coletivo e a clamar por menos turismo e mais comunidade. Numa ManiFESTA organizada por mais de 20 coletivos, cozinhámos juntas, cuidámos do espaço e celebrámos a cidade como a desejamos: com casas, ruas e praças cheias de vizinhas, de risos, de cantos, de aprendizagens – de vida.

E gritámos: A cidade é nossa!
E cantámos: “As casas aqui da Graça / Hão de ter gente outra vez / Vivendo as suas vidas / Sem mágoas ao fim do mês”

O Quartel da Graça, um bem público ameaçado de virar hotel de luxo, tornou-se mais uma vez símbolo de resistência.

Como dezenas de cidades que participaram nos Housing Action Days 2026 em mais de 180 ações em 96 cidades de 22 paises, reivindicámos casas para viver, espaços comunitários e coletividades fortes.

Nem a especulação, nem a turistificação darão cabo das nossas vidas. Pelo contrário: estamos organizadas para dar cabo das escolhas políticas mortíferas, injustas e antidemocráticas que transformam Lisboa num parque temático e um corredor aéreo ao serviço do lucro.

Mostrámos que a cidade pode ser vivida de forma justa, alegre e solidária – e convidamos toda a gente a continuar a ocupá-la, defendê-la e reinventá-la.

Abaixo o hotel no quartel!
Viva a vizinhança, o bairro, as coletividades e o direito à habitação!

Eis o texto lido durante a ManiFESTA:


É a partir do Quartel da Graça que nos juntamos este ano aos Housing Action Days 2026, uma semana global de ação pelo direito à habitação num planeta habitável. Em tempo de guerras, repressão, desigualdades e colapso climático, organizamo-nos para defender aquilo que sustenta a vida: casa, comunidade, bens comuns, o direito ao espaço e à cidade.

O Quartel é um símbolo desta encruzilhada em que nos encontramos. A sua conversão num hotel seria mais um capítulo na transformação da cidade em mercadoria, mais uma porta fechada para quem aqui vive. Casas transformadas em alojamento local, prédios inteiros comprados para investimento, rendas sufocantes, moradores empurrados para fora. As coletividades resistem com poucos meios, enquanto o espaço urbano é reorganizado para atender fluxos turísticos em vez das necessidades do bairro.

Este processo não é isolado nem inevitável. A turistificação alimenta-se da especulação imobiliária, mas também de uma forma de mobilidade que a torna possível e lucrativa: a aviação. O debate recorrente sobre o Aeroporto de Lisboa não está desligado da crise da habitação. Para além de ser a maior infraestrutura fóssil do país, funciona como porta de entrada e pilar de um modelo económico dependente do turismo. A expansão da aviação e a proliferação de voos baratos intensificam fluxos, aceleram investimentos e aumentam a pressão sobre os territórios. A crise da habitação, a turistificação e a crise climática não correm em paralelo: entrelaçam-se e reforçam-se mutuamente.

Mas a nossa vontade e imaginação sobrepõe-se as estes processos destrutivos. Quando olhamos para a fachada do quartel, vemos mais do que um edifício. Projetamos ali o nosso imaginário coletivo. Vemos habitação acessível, espaços para as coletividades, salas abertas a associações e vizinhança, pátios partilhados, espaços ao serviço de quem cá vive. Imaginamos o quartel como um lugar de encontro, cuidado e organização. Este é um símbolo do que recusamos, mas sobretudo do que queremos construir.

A cidade não é um parque temático nem um corredor aéreo ao serviço do lucro. Queremos retomar o Quartel, reocupar as nossas casas, plantar árvores nas pistas de aterragem e desimpedir o rio de cruzeiros. Reclamar a cidade para quem a habita, trabalha e cuida dela.

Na semana dos Housing Action Days, saímos à rua para abrir possibilidades. Lutamos por espaço e casa para todas as pessoas, por coletividades fortes, por colocar os bens comuns nas mãos das pessoas, por um planeta habitável. Sabemos que isso passa por limitar a expansão hoteleira e do alojamento local e por conter indústrias que degradam o território e o clima, como a aviação e os cruzeiros. Festejamos o futuro que queremos ver nascer neste quarteirão e em todos os outros. Organizamo-nos, ocupamos o imaginário e o espaço, transformamos a fachada em horizonte.

Abaixo o hotel no quartel!

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